Vozes da literatura mozambicana:”Terra sonâmbula” por Mia Couto

Terra sonâmbula è um romance maravilhoso do escritor moçambicano Mia Couto, que fala sobre os efeitos destrutivos da guerra, sobre a esperança, a paz, sobre a morte e a vita e sobre o papel poderoso dos sonhos. O livro tem uma estrutura muito singular, há uma narração dentro  de uma narração, e nessas duas tramas encontram-se várias histórias. Mesmo tratando de um assunto muito pesado e dramático, o da guerra e da viagem através de uma terra devastada, achei a leitura do livro bastante fluida. Os termos linguísticos da cultura e da vida mozambicana estão bem mergulhado com o tecido da narração. Porém, acabei a leitura do livro com uma sensação de dor pela humanidade, de sonho e de esperança no mesmo tempo:

O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva.»

O romance começa com a imagem de uma estrada morta, cenário da guerra: estamos em Moçambique na década de 1990, a independência já se deu em 1975, mas tem-se instalado uma guerra civil muito sangrenta que não deixa a população em paz e não  permite o desenvolvimento do País independente.

A guerra é uma cobra  que usa os nossos próprios dentes para nos morde. Seu veneno circulava agora em todos os rios da nossa alma. De dia já não saímos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos. 

A primeira história conta da viagem sem destino através da terra devastada pela guerra. Há um menino, Muidinga, acompanhado pelo velho Thuair que por acaso o tinha salvado da morte, cuidando dele com imenso carinho. A enfermidade do Muidinga deixou-lhe um leve coxear e a falta da memoria, mas ele, diversamente do velho, ainda sabe ler. Os dois andam juntos, seguindo por uma estrada sem vida. Muidinga sonha que vai encontrar os pais do que nem se lembra. No caminho deles encontram um machimbombo (autocarro) incendiado com os restos das vítimas carbonizadas e tornam-no em abrigo. Perto do lugar há uma mala abandonada, caída no chão, e lá dentro estão cadernos soltos que formam um diário de um homem falecido (se calhar…), mas cujo corpo não hei de encontrar.

Assim começa a outra trama do romance, a história narrada nas paginas soltas do Kinzu, outro protagonista e também vitima da mesma guerra civil. Depois de ter perdido o seu pai, o seu irmãozinho numa capoeira e o seu amigo indiano, Kinzu resolve deixar a sua terra e deseja juntar-se com os guerreiros naparamas para contribuir a estabelecer a paz. Inicialmente ameaçado pelo espírito do seu pai, Kindzu parte para uma viagem épica: entre os vários acontecimentos, encontra uma mulher que foi abandonada num navio e que deseja achar o filho que perdeu, os habitantes e os governadores de uma aldeia chamada de Matimati, uma mulher portuguesa que se finge louca para não explicar coisas que não quer explicar, e muito mais acontece. Quase todas as personagens que aparecem na narração estão em relação uns com os outros, tanto que, no final, o romance parece estar constituído por uma trama única.

Eu sentia que a noite chegava ao fim. Qualquer coisa me dizia que me devia appressar antes que aquele sonho se extinguisse. Porque me surgiam agora alucinadas visões de uma estrada por onde eu seguia. Mas aquela era uma muito estranha picada: não estava imóvel, esperando a viagem dos homens. Ela se deslocava, seguindo de paisagem em paisagem. A estrada me descaminhou. O destino o que é senão um embriagado conduzido por um cego?

Aos poucos, seja o Muidinga seja o Thuair ficam tão presos pelos cadernos do herói que acabam por fingir de ser  as personagens da história do Kindzu, enquanto andam viajando dirigindo-se para o mar. As duas tramas da narração acabam por se entrelaçar e as duas realidades se fundem numa só.

Os factos da verdadeira história moçambicana se misturam perfeitamente com a magia e com os símbolos; o livro apresenta uma qualidade muito elevada de escritura, uma linguagem poetica e cheia de metáforas e sentimentos.

O Romance foi adaptado pelo grande ecrã numa versão de 2007 que achei muito bem feita, uma co-produção portuguesa e moçambicana dirigida por Teresa Prata.

Advertisements

4 thoughts on “Vozes da literatura mozambicana:”Terra sonâmbula” por Mia Couto

  1. O Moçambique não é o unico país que tem, agora mesmo, isto tipo de problemas. E isto é um mau que se parece com um cancer dentro de tuda a humanidade.
    Eu gosto bastante de isto tipo de livro… acho que es uma narraçao real e dura, alèm tenho dor a realizar que pouco se pode fazer por mudar as coisas… en verdade… não podemos fazer muito. Os sonhos, querido em seus corações, estos sim podem mudar as coisas mas isso leva tempo… talvez muitas vidas. Eu não conhece o escritor nem o filme, acho interesante os dois, embora eu prefiro ler um bom author.
    Muito obrigada para o seu conselho valioso… :-)claudine

    Liked by 1 person

    • Foi uma surpresa (outra ) encontrar o seu comentário em português :), obrigada pela leitura e pelo seu tempo! Nesse livro, o acto de sonhar é o que resta da condição de “humanos”, nesse contexto de guerra e morte, é a única forma de vida, única esperança. É uma leitura pesada, brutal, mas também poética. Considero o Mia Counto um dos escritores que estão a (re)escrever as histórias, destacando as diferenças e os problemas do nosso tempo.

      Liked by 1 person

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s